Uma viúva que tinha duas filhas: a Helena, que era feia e preguiçosa, e a Irene, que era bonita e trabalhadora. Gostava muito mais da primeira, porque era sua filha verdadeira. A Irene, por seu lado, tinha de fazer todas as tarefas de casa, além de ser obrigada a fiar junto ao poço todos os dias, até ficar exausta.
Uma vez, a Irene fiou tanto que as suas mãos começaram a deitar sangue e sujou o fuso sem querer. Então, quis lavá-lo com a água do poço mas teve tanto azar que o deixou cair à água. Desesperada, foi a correr contar à sua madrasta, mas esta, em vez de a consolar, deu-lhe um grande raspanete.
- Como deixaste cair o fuso, vais ter de descer ao poço para o ires buscar - disse.
Sem protestar, a jovem regressou ao poço, e, mesmo cheia de medo, saltou lá para dentro.
A Irene saltou e perdeu os sentidos. E ao voltar a si, viu que se encontrava num bonito prado cheio de flores e que um coelho vestido de gala lhe dizia:
- Acorda, minha menina! Não desperdices esta tarde tão bonita a dormir a sesta.
Irene, ainda sobressaltada, perguntou-lhe:
- Onde estou?
- Este é o reino subterrâneo que está mesmo debaixo da tua casa - respondeu o coelho perdendo a paciência. - Agora tenho de me ir embora - acrescentou.
- Diz-me só mais uma coisa - suplicou-lhe a Irene. - Onde devo dirigir-me?
O coelho indicou-lhe um caminho e depois foi-se embora a correr.
No fim desse caminho havia uma casa, e como a Irene estava perdida resolveu bater à porta para ver se alguém a podia ajudar a encontrar o caminho de regresso a casa. Abriu-a uma velha mulher com uns dentes tão grandes que ela até se assustou.
A Irene quis sair dali o mais rápido possível, mas a mulher começou a dizer com voz doce:
- Não tenhas medo. Fica comigo e se me obedeceres serás recompensada. A tua única tarefa será a de sacudir com força o edredão da minha cama. Se o fizeres bem, vai nevar no mundo, pois, caso não saibas, eu sou a senhora Holle. Como a mulher insistiu tanto, a rapariga decidiu trabalhar para ela.
A Irene realizava a sua tarefa na perfeição, sacudindo o edredão com tanta energia que as penas voavam como flocos de neve. Para a recompensar, a senhora Holle tratava-a às mil maravilhas; preparava-lhe sempre guisados para comer e nunca lhe ralhava.
Mas passado um tempo, a rapariga começou a sentir-se triste. Ao princípio, não sabia o que se passava, mas, um dia, percebeu que tinha saudades. Mesmo vivendo muito melhor ali do que em sua casa, a Irene contou à senhora Holle que sentia a falta da sua mãe e da sua irmã.
- Eu percebo que queiras voltar - disse - e como te portaste bem, eu vou-te ajudar a regressar.
A mulher acompanhou a Irene até à porta que separava o mundo subterrâneo da superfície, e, antes de partir, devolveu-lhe o fuso que tinha caído ao poço. Além disso, encheu a sua saia de moedas de ouro e pôs-lhe um bonito colar ao pescoço. Então, despediu-se dela dizendo-lhe:
- Dou-te tudo isto como prova da minha gratidão pela tua bondade. Que sejas muito feliz, Irene.
E, num instante, a Irene voltou a estar no pátio da sua casa.
Ao vê-la, o galo que estava empoleirado no poço cantou:
- Cócórócócó, a vossa donzela de ouro já está aqui!
A rapariga atravessou o pátio e entrou em casa e, como ia coberta de ouro, a sua mãe e a sua irmã receberam-na com alegria. Ela contou-lhes tudo o que tinha acontecido.
Quando a mãe ouviu o relato, quis que a sua outra filha tivesse a mesma sorte.
A mãe levou a sua filha Helena ao poço, picou-a num dedo para sujar o fuso com o seu sangue e, de seguida, deixou-o cair no poço e empurrou a jovem atrás dele.
A Helene acordou no mesmo prado que a Irene, encontrou o mesmo coelho e começou a andar pelo mesmo caminho. Quando chegou a casa da senhora Holle, como já tinha ouvido falar nos seus enormes dentes não se assustou e começou a trabalhar para ela.
No primeiro dia a Helena mostrou-se muito trabalhadora e fez tudo o que a senhora Holle mandou, pois pensava no ouro que esta lhe ia dar. Mas em pouco tempo, começou a descuidar as suas obrigações, e, apesar dos sermões da velha senhora, passava o dia sentada no sofá.
A rapariga já não fazia a cama à senhora Holle como era suposto, e nesse Inverno, para grande tristeza das crianças, não nevou no mundo.
Por fim, a boa velhinha perdeu a paciência e pediu-lhe para se ir embora.
A preguiçosa Helena estava satisfeita porque pensava que ela a ia cobrir de ouro; no entanto, a senhora Holle despediu-se atirando-lhe com um bocado de alcatrão pegajoso e mal cheiroso.
Toda suja, a Helena regressou a sua casa e o galo, ao vê-la, cantou:
- Cócórócócó, a vossa donzela suja já chegou!
A mãe, desesperada, tentou limpá-la, mas por mais que a lavasse, não lhe conseguia tirar o alcatrão, e ficou assim o resto da vida.















